Aos 22 anos, a carioca e estudante de jornalismo Maria Clara escreve a sua história em preto e branco. A nostálgica e supersticiosa torcedora sofre de uma terrível e apaixonante doença: o botafoguismo.
Se pegarmos dois botafoguenses fanáticos, talentosos e dispostos a dissolver a paixão pelo futebol nas páginas de um livro, e os colocarmos lado a lado, o que podemos esperar? Choque? Discussão nas alturas? Semelhança monótona, sem debate de ideias? Ou uma bela história, nada mais, nada menos, do que a descrição de uma noite única, quando milhares de pessoas choravam, sorriam e torciam pela paixão de uma vida inteira: o Botafogo.Juntos, Paulo Marcelo Sampaio, autor do recém lançado “Os 10 mais do Botafogo”, e Rafael Casé, dono das belas palavras que contaram a vida de Quarentinha em “O artilheiro que não sorria”, já planejam contar uma nova trajetória. Mais do que a caminhada do Glorioso em 1989 para dar fim ao jejum de mais de duas décadas sem títulos, “21 depois de 21″ quer reunir depoimentos de todos os botafoguenses presentes no Maracanã que, aliviados, comemoraram o título em 21 de junho daquele ano.
Os botafoguenses presentes na data histórica, e que quiserem ter seu nome listado na publicação, devem mandar um e-mail para eutavala89@gmail.com. Conheça mais dos planos dos autores e do livro em: http://21depois21.blogspot.com .
Superstição ou não, tenho amigos que se negam com veemência a assistir o Estadual. Pasmem. São botafoguenses de carteirinha, de coração. Daqueles que choram, que se descabelam, que cobram a diretoria, que vão a treinos e que obrigam os filhos, e os amigos dos filhos, a assistirem todos os jogos do Glorioso. Faça chuva, faça sol, lá estão eles no estádio. Com uma exceção.
Os argumentos variam. Os mais radicais declaram que é uma competição “comprada”. Outros são mais neutros, ressaltando que o nível técnico dos times chega a assustar até um cego. Os mais reflexivos acreditam que com o passar dos anos o torneio se transformou em uma preparação física dos “quatro grandes” para o Brasileirão, que começa pouco tempo depois do fim do campeonato. Será então um campeonato de mentirinha?
Nos últimos quatro anos, Flamengo, Botafogo, Vasco da Gama e Fluminense monopolizaram as quatro primeiras colocações, com exceção de 2007, com Madureira na terceira colocação, e 2006, quando o mesmo foi vice-campeão. O total da conquista de títulos na história da competição também é avassalador. Os “quatro grandes” somam 101 conquistas, contra 11 de clubes pequenos, sendo sete canecos do América, conquistados até 1960.
E mesmo com a mesmice dos “campeões”, a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (FFERJ) ainda busca inovar para trazer alguma emoção ao torneio. O tempo técnico obrigatório que paralisará os dois tempos de uma partida após os primeiros 20 minutos, para que os treinadores de ambas as equipes possam passar instruções para os atletas, entrará em vigor. Mas, assim como os amigos botafoguenses, terá uma exceção. Em partidas transmitidas em TV aberta, em outras palavras, pela Rede Globo, ele não ocorrerá.
Alguns concordam com a pausa, outros discordam. Mas a questão principal é: até que ponto uma competição tem credibilidade enquanto controlada por uma emissora de televisão. Talvez a seriedade do torneio se perca justamente nesta questão, assim como a qualidade das equipes envolvidas ponha-se à prova. Será interesse da organização que os quatro principais clubes do Rio dominem o campeonato, já que são líderes de audiência? Certamente que as boas campanhas incentivam a presença dos cariocas nos estádios. Boas trajetórias que, algumas até, logo no início do Brasileirão, tornam-se mentirosas, causando a desilusão do torcedor.
Mais uma vez, enfim, o Carioca começa. Se ele será sério ou não, se terá qualidade ou não, todos poderemos ver a partir do próximo sábado, 16, quando as equipes entram em campo. Alguns continuarão com suas crenças em relação ao campeonato e deixarão o Glorioso de lado pelo menos no início deste ano. Outros acreditarão que uma boa campanha poderá incentivar o time na disputa do campeonato nacional, como todos os anos. Outros irão assistir, torcer, acreditar, mas no fundo e ao final da competição, não irão esquecer que após o Estadual, uma nova realidade começa. Talvez a mais real que possamos viver este ano.
Se é medo? Não sei. Talvez terror, pânico. Bem provável que seja. É difícil aceitar que todos os nossos anos são assim. Ou pelo menos quase. Algumas fases piores, outras minimamente melhores. Há pouco tempo falei que o calendário do Botafogo só ia até abril. Sempre a mesma história. Péssimo fim de ano, sem ter realizado os objetivos traçados ao longo da temporada, pré-temporada de tranquilidade, novas expectativas e, enfim, contratações medíocres (mas sempre com argumentos que é preciso aliviar a folha salarial). Aí começa o Estadual, com mediocridade compatível com o elenco dos times e com a (des)organização da Federação do Rio de Janeiro (FERJ). Até vamos bem, o que não é difícil. Ou levamos a Taça Guanabara, ou levamos a Taça Rio. Mas e o título do Carioca? Bom, esse já é, de praxe, do Flamengo.
Não faria tanta diferença se a partir daí continuássemos buscando coisas novas. Copa do Brasil? Sempre fica pra depois. Até que nadamos, mas sempre morremos na praia. Aí vem o Campeonato Brasileiro. E para quê ele vem? A participação do Botafogo é de figurante. Levantamos os defuntos e eles agradecem. Nos afundamos e damos chances para times pequenos traçarem novas metas na série A. E para quem fica a vaga na série B? Se cavamos uma vaga na Sul-Americana no ano anterior, os ânimos se aquecem. Afinal, é uma competição internacional. Mas se nos animamos, logo a decepção paira no ar. E se tentamos buscar esse título, o time não resiste na competição nacional. Afunda. Nas duas.
E aí, começa o desespero. Crises no clube, problemas na folha salarial, possibilidade de rebaixamento, possível não renovação de patrocínios, fim de diversos contratos de jogadores e por aí vai. E aí, ou o time se salva no último segundo, na última partida, matando alguns torcedores do coração, decepcionando outros e enraivecendo muitos, ou o clube amarga entre os quatro últimos - o que significa o fim de uma vida feliz para muitos torcedores. Sem exagero. Pelo menos, até o fim dos 365 dias do próximo ano.
E aí recomeça o ciclo. Jogadores vêm e vão. Possibilidade de títulos até vêm, mas sempre vão. Se para os outros clubes o início de um novo ano é também a possibilidade de uma nova trajetória, para o Botafogo a história é diferente. Um novo ano é praticamente a certeza de que sofreremos (de novo), choraremos (novamente e mais um pouco) e nos desesperaremos até o último minuto do segundo tempo.
Alguns dizem desistir do Botafogo, outros dizem abandonar o futebol e todas as crenças que este oferece. Os que continuam acreditando, vivem se perguntando até quando aguentarão essa rotina, esses fatos, essa nossa realidade. Alguns devem morrer procurando a resposta para esta pergunta.
Mais uma vez estaremos sob um fio. Uma linha tênue que separa as nossas realidades. Uma, nos leva de volta para o ciclo infernal que já vivemos há alguns anos. A outra é uma realidade amarga que já experimentamos, que sabíamos que a qualquer dia poderíamos voltar a vivê-la, mas que jamais será aceita por qualquer um de nós.
Serão seis dias de muitas dúvidas, sentimentos a flor da pele - incontroláveis, impulsivos e intragáveis. Poderemos, ao fim de tudo isso, experimentar uma sensação de dor, confusão, temor e muita tristeza. Mas até que o time não saia de campo, vamos dar uma chance à possibilidade. Sei que muitos já não acreditam mais no elenco, na diretoria, nos jogadores e até na comissão técnica. Todos estamos cansados de tudo. Mas vamos dar uma chance à camisa preta e branca, à estrela no peito. E, principalmente, ao motivo de ainda continuarmos acreditando. No fim das contas, nascemos botafoguenses. E é assim que todos nós morreremos.
Nos surpreendemos como há muito não fazíamos. Acreditávamos que seria impossível, ou quase. Menosprezamos nossas camisas, bandeiras. Deixamos de lado nossa história. Nos agarramos em números, em momentos, fases e nomes. Nos disseram, um dia, que éramos grandes. Mas nos trataram como pequenos, sem importância. Muitas vezes, quantas vezes nos deixamos ser enganados?
De fato somos grandes, somos enormes. Ocupamos um lugar inimaginável no mundo. Traçamos caminhos que antes nenhum ser pensou existir. Tivemos ídolos que se recusariam a vestir uma camisa que não fosse aquela, com a estrela no peito. Fizemos história, contamos história, nós somos uma história. Somos muitas. Com início, meio e nunca um fim.
Hoje, disseram que um gigante nos derrubaria. Se enganaram. Nós somos os gigantes e demos mais um passo em direção a nossa história. Existiremos, aonde quer que seja.
Se o comportamento da diretoria alvinegra perante o clássico realizado no Engenhão não foi dos melhores, os dirigentes, jogadores e comissão técnica do Flamengo deram um show de horrores de desrespeito ao adversário e ao futebol brasileiro. As declarações diminuindo o potencial do Estádio Olímpico para receber jogos de grande porte, as aspas do técnico Andrade sobre os prejuízos financeiros que o Botafogo teria tido com o clássico, além de outras frases infelizes, caracterizaram o clube da Gávea como uma grande marionete controlada por mentes inconstantes e incontroláveis.
O Estádio Olímpico João Havelange ainda engatinha para ser um dos estádios mais seguros e modernos do país, sim. Mas, no entanto, obstáculos como a violência entre torcidas organizadas, que atinge famílias e torcedores em busca de alegria e futebol, são de responsabilidade pública e pessoal. Mesmo que o Engenhão atingisse os maiores níveis de modernidade e segurança já vistos em território nacional, ainda existiriam torcedores à procura de pancadaria e dirigentes amadores incitando brigas e ofensas, além da quebra de regras.
O Engenhão é nossa casa, o nosso lar. E merece respeito, assim como os torcedores do histórico e genial Botafogo de Futebol e Regatas, que buscam respirar a arte que é o futebol e o significado que ele trás às nossas vidas.
o Flamengo se espreme nas quatro linhas do mini campo de treinamento. Márcio Braga e sua turma devem já estar pensando com seus botões o que farão na temporada do Brasileiro de 2010, quando o Maracanã estará fechado para obras. Após sua torcida destruir o patrimônio do Botafogo na partida do último domingo, o mais razoável seria o Engenhão fechar suas portas para os vândalos rubro negros.
E o que restaria aos flamenguinhos? São Januário? A Gávea? Ou quem sabe as Laranjeiras? Terá o flamengo que jogar nas areias da praia de Copacabana? Indico um bom gramado sintético na Rua Abaeté, em Vila Isabel. Fica aí a dica, mas caberá aos dirigentes rubro negros, mergulhados em seus egos inflados decidirem. Eis um mistério. O desfecho da história ainda está longe, mas vale a pena acompanhar: àqueles que desmereceram o futebol, serão desmerecidos pelo próprio esporte.
A humilde 18º posição na tabela do Campeonato Brasileiro é, pelo menos para os torcedores, um motivo de alerta. Com apenas 25 pontos na competição, o Botafogo é um dos alvos da série B e luta diariamente para sair da zona de rebaixamento. No entanto, a diretoria alvinegra preferiu acreditar e jogar com as peças que estão disponíveis no tabuleiro e que, até agora, deram um show – de horrores.
O encerramento das inscrições de jogadores para o Brasileirão é nesta sexta-feira, mas os alvinegros que se animaram com a ideia de novas contratações para que o Glorioso buscasse um lugar ao sol na competição, podem esquecer. Em uma reunião fechada na última quinta-feira, Estevam Soares e a diretoria do clube decidiram manter os pés fincados no chão, admitir que não há dinheiro e nem jogadores que possam ser contratados e seguir adiante. O vice de futebol André Silva, em entrevista à Rádio Brasil, tentou justificar a decisão.
- Qualquer atleta de nível mediano, que nem estourou no cenário nacional, fala em salários de quarenta a sessenta mil reais. Com um grupo de trinta atletas, pegando essa quantia como base, você não consegue manter uma folha salarial em dia.Grandes contratações são muito complicadas – disse.
Com a decisão, a ordem é clara em General Severiano: improvisar. E que nenhum jogador se ofenda com a palavra, pois o rodízio poderá alcançar todos os setores do gramado até achar a fórmula ideal – se esta existir. Thiaguinho, que recentemente ganhou a posição do vaiado Alessandro, será um dos improvisos. Gabriel, revelado nas categorias de base do clube, ainda busca a confiança dos torcedores, mas deverá ser utilizado.
Assim, o Botafogo seguirá na corda bamba na competição. Sem contratações ou novidades, o Alvinegro terá que suar a camisa para respirar fora da zona da degola. Que rufem os tambores, o show vai continuar. Falta saber se o time tem o poder de surpreender o público ou se, com o encerramento das inscrições, encerra-se também a trajetória do Glorioso na série A.
Enquanto Ney Franco dava adeus ao Botafogo e embarcava para Curitiba, Estevam Soares já preparava uma receita especial para dar fim à dieta de vitórias e boas atuações da equipe alvinegra. Vindo do comando de um surpreendente Barueri, o então contratado técnico do Alvinegro apostou na dobradinha motivação e treino, um energético poderoso, presente constantemente nos treinos e à beira do gramado.
O tempo passou e se algo melhorou, não pode ser visto dentro de campo. Sem energia ou vontade, muitos jogadores pareciam não estar se adaptando ao novo energético alvinegro. Se foi receitado em doses homeopáticas, o ingrediente deve então estar fora da validade ou ter efeitos à longo prazo. Ou então, duração de no máximo algumas horas que acabam bem antes de iniciar alguma partida.
A primeira opção se torna mais atraente a medida em que, com a vitória na última quarta-feira sob o Atlético-PR no Engenhão, o jejum de vitórias de Estevam Soares, no total de oito jogos, chega ao fim. O novo energético poderá ter iniciado um efeito mais duradouro? Mesmo com a boa atuação de uns, outros parecem demonstrar aversão ao santo remédio. E o que fazer? Aumentar a dose? Ou apostar em uma nova receita?
É o que Estevam Soares terá que mostrar a partir de agora, comandando a reação alvinegra no Campeonato Brasileiro. A vitória na Sul-Americana pode ser o começo de uma nova trajetória do Botafogo ou o fim de uma, ou várias em um mesmo elenco.
É nisso que acredita o colunista do jornal Extra, Gilmar Ferreira. Segundo ele, a diretoria do clube já cogita um novo nome para integrar o grupo de General Severiano caso o atual treinador não consiga tirar o Botafogo do buraco. O nome que se põe como favorito é o de Alexandre Galo, ex-Santo André e, atualmente, desempregado.
Ao que tudo indica, o energético importado de São Paulo parece não se adequar a todos os organismos do elenco alvinegro. Para se manter no cargo, Estevam terá que apostar em uma nova receita a base de dignidade, vontade e memória, para que os jogadores relembrem o quanto um rebaixamento pode manchar uma camisa e uma carreira. O remédio é santo. Agora só falta funcionar.
A emoção era visível em seus olhos, em suas mãos trêmulas, em sua fala, em cada parte do seu corpo. A simples combinação de letras da palavra Botafogo já resgatava, em sua memória, momentos marcantes de sua história. À cada lembrança, seu corpo parecia gritar, querendo repetir os movimentos que foram cruciais para as suas maiores conquistas. Nossas conquistas.
Frustração em não fazer parte daquilo que mais se amou, do que o transformou e o tornou em que, no fundo, gosta de ser lembrado, conhecido. Vida mansa, pacata, que lhe rendia um tempo para retornar à um passado glorioso, ficando distante, cada vez mais, do que queria para sua vida.
Não volta para terminar o que não terminou. Volta para reiniciar sua trajetória de vida, para cumprir uma missão não só profissional, mas também como ser humano. Como uma peça fundamental dentro do verdadeiro Botafogo de Futebol e Regatas, que recebe de presente de aniversário o retorno de um herdeiro. De uma vez por todas, e pela última vez, volta para os braços de uma legião de fanáticos e apaixonados admiradores.
Wágner, bem-vindo de volta ao lar.
Nasceu. Era seu sexto filho, quarta filha, a terceira que vivia. Seria, portanto, sua última chance de realizar seu sonho: um filho que torcesse para o Flamengo e vibrasse com o som de sua torcida. Para ele, não era pedir muito. Vindo ainda novo do Rio Grande do Sul, com pouca bagagem e uma camisa do Grêmio, não desejava nem que o tricolor gaúcho fosse prioridade. Se partilhassem da paixão apenas pelo rubro-negro já estaria de bom tamanho.
E logo no primeiro dia de paternidade a missão já parecia começar. A grande dificuldade não seria transformar a criança em flamenguista. Para ele, o desafio era fazer com que a menina que nascia no dia 23 de fevereiro de 1987 se apaixonasse pelo futebol. E de fato ele se enganou.
Tentou de tudo. Camisas, adereços, Maracanã lotado de flamenguistas, gritos de guerra, hino, reportagens e histórias. Parecia não funcionar.
A menina, desde nova, se interessava por todos os brinquedos e esportes masculinos. Pipa, gulliver, totó, futebol de botão,carrinhos, video-games, super-trunfos, autorama, fliperama, futsal, judô e futebol de campo. Por tudo. Menos pelo Flamengo.
Pensava constantemente aonde tinha errado. Não havia de ter problemas com isso. Afinal, era apenas uma criança, uma menina. Do que ela saberia sobre a paixão pelo futebol? Como haveria de conhecer outro clube que não fosse o time da Gávea? Lhe ensinara tudo sobre o esporte, desde pequena. Como poderia conhecer algo que ele não havia lhe ensinado, lhe apresentado?
Ele não sabia, mas a paixão dispensava apresentações. Sentiu medo de que a história se repetisse. Dos seis filhos, duas meninas desinteressadas pelo esporte. Eram Flamengo assim, como a maioria é. A outra, a vida levou. Mas ele pensava: “seria flamengo se aqui estivesse”. Dois meninos, dois botafoguenses. Tentara à qualquer custo que se apaixonassem pelo Flamengo mas, sem motivo ou influência, eram fanáticos pelo Botafogo.
Sua última chance era a pequena garotinha. Era mais maleável, mais menina, mais delicada. Haveria de se render aos encantos rubro-negros.
Mas não, não deu. Um pai flamenguista que, sem sucesso, tentou transformar seus filhos em rubro-negros aprendeu, no dia 21 de junho de 1989, com sua última chance, que a paixão é inconvertível. Mesmo sem entender o que se passava, a menina caiu em lágrimas de emoção, vestida com uma imensa camisa listrada de preto e branco. Algo já começava a pulsar. Um instinto, talvez.Algo que ela começaria entender dali há alguns anos e que não conseguiria controlar.
E pensava o pai: “lá se fora minha última chance”. Não saberia ele, dizer ou explicar.
Pensa ele, até hoje, aonde pode ter errado. Meu pai, te digo, não erraste em lugar nenhum. Agradeço a ti por ser flamenguista. Esse é um dos motivos que me prova ser e me faz mais botafoguense.
*Ao meu pai, por todas as histórias, por todo o empenho em me tornar apaixonada pelo Flamengo. Pai, não foi dessa vez e nem nessa vida. No fim das contas, partilhamos apenas da paixão pelo jornalismo e pelo futebol.
Graças a Deus.
Feliz Dia dos Pais!

Pernas frágeis, memória intocada e narrativa impecável. Não era de se esperar que a “enciclopédia do futebol”, já aos 85 anos, ainda conservasse bom humor e conhecimento sobre o jornalismo esportivo no rádio. No entanto, Luiz Mendes, um dos maiores locutores do Brasil foi, na última terça-feira, 4, personagem principal no debate Futebol-arte: A arte do Futebol, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
O evento contou também com a presença do jornalista e tricolor Álvaro Oliveira Filho, da Rádio Globo, e do professor e sociólogo Ronaldo Helal, autor de “A Invenção do País do Futebol”, na mesa de debates. Também da Rádio Globo, o jornalista Eraldo Leite marcou presença.
“Comentarista da palavra fácil”. Foi assim que Mendes foi apresentado à pequena plateia que encheu a sala da ABI. Relembrando as dificuldades de sua época, o jornalista, um dos fundadores da Rádio Globo, falou sobre a sobrevivência do rádio junto à expansão da televisão.
- Os avanços eletrônicos foram muitos. Era muito difícil trabalhar antigamente se compararmos com o cenário atual. Os números nas camisas não existiam. Tínhamos que reconhecer os jogadores pelas características físicas. O Jair Rosa Pinto, por exemplo, eu sabia quem era por causa das pernas finas. E mesmo com tantos sacrifícios, nós narrávamos sem saber se estávamos indo ao ar. Só ao final da transmissão, quando chegávamos ao hotel, é que recebíamos a notícia. Se fosse positiva, nós íamos comemorar – divertiu-se.
A busca por um espaço
Primeiro veículo de comunicação, o rádio surgiu em meados de1922, tornando-se, com o tempo, um verdadeiro integrador das massas. Com a baixa qualidade da transmissão, a informação podia percorrer longas distâncias e alcançar diferentes públicos. Mesmo com o passar dos anos e o surgimento de novas mídias, o mídia radiofônica conserva a sua magia e um público ouvinte fiel.
Sem a ajuda da imagem, como na televisão, o rádio depende da interpretação de cada um, criando assim, inúmeras percepções sobre um mesmo assunto. É nisso que acredita o sociólogo Ronaldo Helal. Para ele, a transmissão esportiva no veículo incentiva a imaginação de quem ouve e é uma dos responsáveis por criar mitos.
- A mitologia do futebol brasileiro não existiria se não fosse o rádio. O Brasil, antigamente, não tinha ideia de como formar uma nação. Até que o futebol surgiu como uma peça integradora dessa multidão, dando a sensação de unificação – comentou.
A importância e a contribuição histórica do rádio tornam-se, cada vez mais, indiscutíveis. Helal acredita que parte disso se dê devido à grande influência do rádio nos ouvintes. Até mais do que a televisão em seus telespectadores.
- Eu acredito que o rádio tenha maior influência do que a própria imagem. Na TV, a imagem mostra o lance. Você vê e confere com seus próprios olhos, não há como contestar. Já o rádio, sem a imagem, o ouvinte acredita no que o locutor e o comentarista falam. No estádio, o aparelhinho é a extensão dos sentidos – esclarece.
Mesmo com sua popularidade, é preciso muita prática para ouvir e entender uma transmissão radiofônica. A velocidade da locução, muitas vezes, para os acostumados ao ritmo mais lento da mídia televisiva, pode confundir. E essa é uma das provas que confirma o quanto a TV busca se adaptar às velhas técnicas dos radialistas.
O gol narrado de forma longa e contínua, uma criação de Ribeiro Júnior, renomado locutor paulista, teria sido uma das adaptações que a televisão fez. Mesmo com a imagem, mostrando a bola na rede, o grito é uma forma de trazer emoção para a transmissão.
Lembranças que marcam
E foi assim, em um ambiente criativo e bem humorado que o radiojornalismo esportivo criou suas raízes. Expressões como “Está lá, um corpo estendido no chão”, de Januário de Oliveira, e efeitos sonoros – vinhetas de placar e tempo restante de jogo, por exemplo – eram uma forma de encantar ouvintes e modernizar as técnicas jornalísticas do veículo.
Segundo Álvaro Oliveira Filho, jornalista da Rádio Globo, para muitos, a locução dos radialistas são mais informativas do que as feitas pelas emissoras de TV.
- Em geral, o repórter do rádio é responsável por acompanhar diariamente um clube em específico, enquanto o da televisão, às vezes cobre um, outras vezes, outro. Fora que a transmissão do rádio é bem mais emocionante – opina.
Mesmo sem o apoio da imagem, a imprevisibilidade do rádio e a paixão que ele transmite ainda encantam brasileiros apaixonados por futebol. Asfixiado pela TV, que vêm movimentando as massas, o rádio busca sobreviver. Para isso, a internet se coloca como uma forma de inovar e, assim, resistir à pressão.
- Se você analisar bem, a TV faz tudo o que a mídia radiofônica fazia antigamente, só que com o apoio da imagem. Nós tentamos nos modernizar para continuarmos existindo. Com salas de chat no site da Rádio, enquetes e perguntas enviadas pelo ouvinte, tentamos mudar. Sabemos que precisamos disso – disse Oliveira Filho.
Mudanças
Mesmo com a ascensão da TV, a necessidade de existirem diversos meios de comunicação ainda é grande, inclusive pelo ritmo acelerado de vida. E é essa grande quantidade que distingue os velhos dos tempos atuais. Para Mendes, o futebol, mesmo criticado por muitos, continua buscando se modernizar e realizar o imprevisível.
- O futebol ganhou muito em velocidade e marcação. Os goleiros também são muito mais bem treinados do que antigamente. Alguns até batem falta. Além disso, o aquecimento é uma coisa nova para as equipes. Ele trouxe resistência e velocidade ao jogador que, acostumado a correr 7 km durante um jogo, passou a correr o dobro – contou.
O evento terminou com o sorteio de livros para o público presente. O próximo encontro será em setembro, no dia 8, segunda semana do mês, das 18h30m às 21h. O tema será Futebol e Artes Plásticas e terá a presença de convidados ilustres. A entrada é franca.
“Cheia de marra e sempre com uma resposta na ponta da língua”. É assim que os amigos da bibliotecária Luciana Moraes a definem. Aos 34 anos, a botafoguense conta com a sorte de ter nascido em uma família alvinegra e defende com fervor o time nas discussões com rivais.Filha de um português apaixonado por Garrincha, Luciana herdou o fanatismo e a superstição das gerações que viveram para assistir às pernas tortas de Mané. Com manias que vão desde gastar todas as economias com produtos alvinegros até ser fiel às cores do clube em todas as ocasiões, essa carioca dá o que falar nas arquibancadas.

Munida de uma antiga camisa alvinegra na mão, manto sagrado para Luciana, ela invoca as energias de Garrincha durante os jogos, olha pro céu e agradece a Deus por cada gol marcado pelo Glorioso.

Com tanta paixão e fanatismo, Luciana decidiu expressar os sentimentos da maneira mais visível. Tatuou o símbolo alvinegro no ombro e filmou para comprovar o “feito”. Quem quiser conferir de perto as manias da torcedora é só visitar, nos dias de jogo, a arquibancada Leste Inferior, do Engenhão. Luciana é presença fixa e marcante, voz ativa e perseverante, e integrante de uma legião apaixonada pela Estrela Solitária.
Um engarrafamento crescente nas ruas do Rio de Janeiro afeta o humor de milhares de cariocas. Mas essa não é a rotina da motorista de ônibus Lucinete Araújo. Na profissão há três anos, ela percorre um dos caminhos mais encantadores e movimentados da cidade maravilhosa.A bordo da linha 460, São Cristovão x Gávea, a botafoguense admira todos os dias a Lagoa Rodrigo de Freitas. E para espantar a solidão e se sentir em casa, Lucinete conta com uma manopla personalizada, homenageando o Alvinegro.
- Eu ganhei de um amigo e passei a usar sempre. Para qualquer lugar que eu vou, ela vai comigo. É meu time do coração, não abandono por nada, conta.
O botafoguismo de Lucinete chamou a atenção do Redação Alvinegra. Mande você também uma foto demonstrando sua mania e paixão pelo Botafogo ou espere ser flagrado por nós.

Maquiagem, biquines, salto alto, unhas feitas e uma bola de futebol. O esporte das multidões tem ganhado diferentes percepções na sociedade brasileira. E embora a ascensão das mulheres na economia, na política e no meio esportivo tenha aumentado, esse pensamento sobre a insersão feminina ainda está nos primeiros momentos de gestação, tanto para os homens como para as próprias protagonistas da mudança.
A mulher enquanto objeto de consumo e desejo continua no topo da lista, indo, ironicamente, de encontro justamente à temática de liberdade, respeito e igualdade. Enquanto caminhamos para dar continuidade ao que dezenas de mulheres lutaram para conseguir, esbarramos nos preconceitos enraizados e no machismo presente também em nós.
Mulher e cerveja, mulher e futebol, mulher e samba. Dessas dicotomias ainda não escapamos e não buscamos escapar. É preciso resgatar a imagem feminina e desvincular dos temas gerais e superficiais. E com certeza um concurso denominado “Musa do Brasileirão” não é uma boa maneira de conseguir isso.
O futebol, além de arte, é ferramenta de igualdade e política. Ele une povos,classes, raças, desmistifica conflitos e “acalma” nações. Em regiões pobres, o futebol é a fuga de uma realidade marcada por fome, miséria, guerras, tortura e genocídios. E mesmo um esporte tão “simples”, ainda tão poucos têm acesso.


Na África do Sul, um grupo de mulheres luta para instaurar o futebol como esporte em uma região rural do país. A carência esportiva é consequência, principalmente, do Apartheid, malogrado regime político racista que discriminava os negros e restringia os seus direitos. O presidente do Comitê Organizador da Copa de 2010 Danny Jordaan, classificou essa miséria cultural como um dos piores legados do sistema político.
Para esse país, a realização do maior evento esportivo, além de movimentar a economia, trará alegrias para seu povo e a esperança de uma vida com mais oportunidades. E o Brasil, enquanto país do futebol, deve honrar o esporte e a tradição que carrega na camisa e nos pés de ilustres e memoráveis jogadores. Respeitemos então, o papel que as mulheres têm no esporte e o poder que ele tem de transformar a vida de milhares de pessoas que vivem na miséria.
Assim, a nudez e o exibicionismo da mulher vinculada ao tema, dará então lugar à debates e discussões que elevarão o potencial de nações subdesenvolvidas no esporte.
Eu, enquanto mulher, procuro honrar o papel feminino no futebol e em diversos degraus da organização política e econômica nacional. Se não podemos abolir concursos desse tipo, votemos nas protagonistas das histórias mais bonitas, com as lutas mais dolorosas e as conquistas memoráveis. Aquelas que experimentam todos os dias as belezas, as alegrias e a transformação que a arte do futebol bretão proporciona, são as mais fortes candidatas. Portanto, para musas, eu voto nelas.

Impressionante como a história dos clubes de futebol se perde com o tempo. Toda a luta por títulos, sede, campo. Todas as crises financeiras, políticas, sociais e raciais. Tudo pelo o qual nossos antepassados futebolísticos lutaram para construir para então, chegar ao que é hoje, tudo se desmancha no ar. Futebol é paixão. Talvez seja por isso que seja tão difícil perceber o quanto ele se deteriora com o passar dos campeonatos. Quantos Helenos de Freitas, Azeredos e Paulinos são esquecidos? Quantos não são nem conhecidos?
Olhar para trás, ver quanta coisa se passou, ver como tudo se construiu. As paredes de General Severiano, confessionário de Carvalho Leite, Murtinho Braga. Quantos pés artistas, dignos de gols históricos, polêmicos, extraordinários, já não pisaram ali. Os choros da derrota, as lágrimas da conquista, os gritos, a amizade e o companheirismo. Tudo tão perto, ali, na antiga sede alvinegra. Mas tão longe, não só pelo traçar da linha do tempo. Mas pelo o desinteresse do jogador, do torcedor.
Saibamos ser personagens nesta época. Mas saibamos olhar para trás, admirar, aprender, conhecer quem fez a história. Talvez sejamos um pouquinho do que o outro nos deixou, construiu. Ficaremos mais perto assim então, das pernas tortas de Garrincha, da sabedoria de Nilton Santos. Aprenderemos a loucura de sermos todos botafoguenses.
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